O câncer de mama e eu

O câncer de mama e eu

A medicina sempre me fascinou. Desde menina era um sonho e um desejo. Aos 23 anos estava fazendo o juramento de Hipócrates. Me formei médica e estava pronta para cuidar, curar e acolher pessoas que precisam às vezes de uma medicação e às vezes de uma palavra de alguém em quem confiam.

Mas aos 36 anos fui surpreendida por um câncer de mama. Tudo aconteceu ao testar um aparelho de ultrassom novo que eu comprara para o consultório. Resultado? Achei um nódulo. A partir dese momento, eu mudava para o outro lado da mesa, passava agora a ser uma paciente, a ouvir tudo que eu falava quando tinha que dar essa notícia para alguém no meu dia a dia.

O câncer de mama e eu – venci

Era uma posição difícil e um buraco se abria no chão. De repente, eu estava frente a frente com a consciência da morte, com medo do sofrimento, queria ver meus filhos crescerem! O diagnóstico foi precoce. Fiz cirurgia, radioterapia e estava curada! Resolvi, então, como a grande maioria das pessoas que passa por um susto desses, melhorar minha vida em tudo que fosse possível.

Mudanças radicais, desde separação, curso de mergulho, aulas de dança (que faço até hoje), alimentação saudável e uma forma diferente de enxergar as pequenas coisas do dia a dia, as coisas simples ficaram mais coloridas.

Em 2009, um amigo voltou de uma cicloviagem pela Toscana e me mostrou as fotos durante um jantar. Na hora eu pensei que era isso que eu queria fazer! Nunca fui atleta, mas gostava de bicicleta e já me imaginava passeando por aquelas paisagens bucólicas. Então, coloquei o pé na estrada e comecei com passeios pequenos pela cidade, sempre em grupo.

Aos poucos ganhei condicionamento e decidi participar de trilhas em estradas de terra, no meio do mato, apreciando cachoeiras… Conheci lugares incríveis com uma visão que não se tem de carro ou a pé e encontrei pessoas maravilhosas e que tinham o mesmo espírito aventureiro, amigos que você leva para o resto da vida, sabe?

Até que um dia, no final de 2014, durante um exame de rotina, uma imagem suspeita apareceu na minha axila e na biópsia lá estavam elas, as células do câncer de mama. Era uma recidiva depois de 12 anos! Não achei ninguém que me explicasse o porquê, a medicina não é uma ciência exata e o problema estava lá, teria que enfrentá-lo.

Desta vez não haveria cirurgia, mas teria que enfrentar a temida quimioterapia. Essa medicação está programada para acabar com as células malucas que resolvem se multiplicar fora de ordem, mas não consegue diferenciar outras células sadias que também tem uma multiplicação rápida, como as células do sangue, as formadoras do cabelo, intestino, mucosas.

Assim, meu cabelo caiu, fiquei anêmica, sem defesas, sem forças para fazer as coisas mais simples. Não podia nem ao menos ir ao cinema ou frequentar lugares muito cheios devido ao risco de infecção. Foi difícil? Foi! Mas passou… Sempre passa, ficou para trás!

Posso dizer que o prazer de andar de bicicleta me proporcionou um bom preparo físico, e a vida saudável que eu levava fez com que eu estivesse forte para enfrentar esse vendaval. Sem contar, é claro, com o colo aconchegante da família e a força de meus amigos, sempre presentes nos momentos mais difíceis.

Nas trilhas de bike nem sempre as estradas são retas, algumas vezes existem longas subidas, com pedras, buracos e obstáculos. Muitas vezes desci de minha bicicleta e empurrei, outras tive que levar a bicicleta nas costas… e outras precisei da ajuda dos amigos.

Cicatrizes? Várias, mas com orgulho de todas elas. E quando você termina o percurso e esquece a dificuldade, sobram a alegria de ter conseguido e a capacidade de enxergar a felicidade em coisas tão simples, como ir ao cinema ou dar uma volta no parque.

Eva Maria Gonzalez Durán