Bicicletas, Caminho de Santiago e Medicina

Minha relação com as bicicletas é cheia de idas e vindas. Comecei, ainda pequeno, com uma Caloi vermelha com rodinhas, mas não podia ir muito além do quintal ou da frente de minha casa, embora a rua de casa não tivesse movimento algum.

Depois tive uma bike de três marchas e achava o máximo. Em pouco tempo foi substituída pela Caloi 10. Mas foi um misto de alegria e frustração porque apesar dela ter 10 marchas vinha com pneus frágeis e finos, que não suportavam as ruas de Guaratinguetá.

Era só eu fazer um passeio e no meio dele vinha o desapontamento. Tentei voltar para a de três marchas, mas já havia crescido um pouco e ela foi dada de presente para alguém.

Então, esqueci-me das bicicletas e somente em 2013 é que voltei a me animar. E nesse período, uma tendinite calcária no ombro me deixou fora do circuito mais de meio ano. Resultado? Uma nova bicicleta voltou a ficar parada na garagem.

Em 2014, pensando no que faria nas férias, comecei a conversar com um paciente que estava sendo submetido a um transplante. Ele me mostrou algumas fotos e falou sobre o Caminho de Santiago.

Fui pesquisar sobre o assunto e vi que não teria os quase 30 dias para fazer o Caminho. Comecei a ler sobre o roteiro e vi que se eu fizesse de bicicleta seria possível pedalar nesse trecho em menos tempo.

Empolgado com as histórias contadas pelo meu paciente, comecei a treinar diariamente, não só pedalando na rua, mas também em academia. Menos de três meses depois embarquei. Confesso que empurrei bastante a bicicleta, principalmente no início, até conquistar um condicionamento físico ideal.

Bom, voltei da viagem muito feliz e conheci a dona desse blog, a Nuria. Nos conhecemos no hospital, onde ela estava para fazer o tratamento do mioeloma múltiplo (SAIBA MAIS AQUI).

Eu tenho por hábito conversar muito e adoro ficar papeando com pacientes, tanto que por alguns instantes eu acabo esquecendo que eles estão internados. E creio que eles também (rs).

Acho até que pelo fato de eu gostar de falar sobre vários assuntos, talvez isso funcione como algum tipo de terapia ou quem sabe eu canse as pessoas com tantas informações (rs).

Fato é que a Nuria se tornou uma amiga de infância, daquelas que você conhece um pouco depois da infância ter terminado. Ali mesmo no hospital marcamos um pedal e pouco mais de um mês após a alta dela saímos para pedalar nas ruas de SP, com direito a terminar no Ibirapuera e tomar água de coco.

Depois desse passeio, passei a refletir que possivelmente fizemos algo inusitado. Não deve ser comum médico e paciente saírem para pedalar depois de tão pouco tempo de tratamento.

Voltei para casa me sentindo muito grato. Transplantes de medula óssea, que foi o que a Nuria fez, devem ser assustadores para quem passa por ele. Apenas a título de curiosidade e seguindo meu hábito de médico (rs), esse tipo de transplante é chamado mais precisamente de transplante de células progenitoras hematopoéticas.

Só sei que refleti bastante depois dessa experiência. Até porque, normalmente, são os pacientes que ouvem o médico discorrer sobre determinados assuntos. Mas dessa vez foi diferente e posso dizer que foi um presente poder compartilhar com meus dois pacientes essas duas experiências: a sugestão do roteiro pelo Caminho de Santiago e o passeio de bike com a Nuria.

Eles me “guiaram” para belas paisagens, trouxeram-me de volta o prazer pela atividade física e ainda me deram de presente a amizade e muitas histórias para contar.

Muito obrigado!

Cláudio Galvão

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